Iniciação aos Vinhos Portugueses I: Essência do Vinho

Antes de começar mais uma das nossas férias enogastronómicas (desta vez na Sicília, que há muito estava nos nossos planos), vou recuperar da memória e dos meus arquivos fotográficos a nossa marcante primeira visita ao Porto e à região do Douro. Foi marcante não apenas pela grandiosidade da paisagem, pela longa tradição vinícola da região e pela qualidade dos seus vinhos, mas também pela simpatia do seu povo. E como a “cereja no topo do bolo”, inesperadamente, a nossa visita coincidiu com a celebração no Porto da feira “Essência do Vinho”, onde pudemos mergulhar completamente no panorama vinícola português, já que lá pudemos provar desde tintos do Alentejo até Vinhos Verdes e desde Vinhos do Porto até vinhos da Madeira.

Outro dia dedicarei-me aos Vinhos do Porto, que merecem uma entrada independente, porque hoje quero focar-me nos “vinhos de mesa” (como eles os chamam, para os distinguir dos vinhos doces do Porto). Apesar de os vinhos não-doces serem produzidos em menor quantidade, a sua fama atravessou as fronteiras portuguesas graças a um grupo de produtores, os famosos Douro boys, que desencadearam uma espécie de revolução na região. Atraídos pela sua fama, ao organizar a viagem tentamos agendar visitas a algumas dessas interessantes adegas, mas recebemos uma negativa como resposta. A razão, a nossa visita coincidia com a feira “Essência do Vinho” no Porto, e grande parte do pessoal estaria lá. No entanto, com um gesto de grande gentileza da sua parte, conseguimos visitar as adegas da Nieport e da Quinta do Vallado.

Mas vamos começar pelo início. Saindo de Salamanca no sábado de manhã, e embora na época a autoestrada não estivesse terminada (apesar de já estarmos no século XXI, era o ano de 2006), chegamos ao Porto a tempo para almoçar. Sorte que em Portugal estão uma hora atrasados em relação à Espanha, embora eu nunca ajuste o relógio, porque como os seus horários são um pouco mais cedo, continuo a orientar-me pelo horário espanhol (almoçando à 1 parece que o fazes às 2, ou indo para a cama às 11 parece que te deitas à meia-noite…). E depois do almoço, a primeira surpresa, já que a feira “Essência do Vinho” não se realiza num pavilhão industrial, mas no Palácio da Bolsa do Porto, um dos monumentos mais bonitos da cidade. Uma pena que o espaço fique um pouco pequeno para a quantidade de adegas e público que participam, mas o cenário é verdadeiramente incomparável.

Esta é a vista da fachada do Palácio da Bolsa preparado para o evento e do impressionante salão principal (onde são colocados parte dos stands das adegas). As salas anexas, onde são realizadas degustações e provas “restritas”, também são lindas. No nosso caso, inscrevemo-nos para uma excepcional prova de Champagnes Deutz (mediante o pagamento do módico preço de 20€, um preço irrisório dada a qualidade do que provamos) na sala do tribunal.

Mas voltando ao nosso tema principal, que é o vinho, não posso deixar de mostrar-vos a jóia do Palácio da Bolsa, o Salão Árabe, assim chamado pela sua decoração, que mais parece estar na Alhambra. Uma verdadeira maravilha.

Na feira, tivemos a oportunidade de provar, entre muitos outros, os excelentes vinhos da Quinta do Crasto, pelas mãos da então enóloga, a simpática galega Susana Esteban (que agora se mudou para o Alentejo). Cristiano Van Zeller serviu-nos o seu Quinta Vale Dona Maria, que elabora com Sandra Tavares (que, juntamente com o marido, produz o Quinta de Chocapalha no Estremadura, uma das descobertas do dia). Mas não eram apenas as vinícolas do Douro que estavam presentes (o que dizer dos Vintages do Porto, Noval, Fonseca, Taylor's, Dow's, Sandeman, etc.), os grandes do Alentejo também marcaram presença: Esporão, João Portugal Ramos, Cortes da Cima, Herdade dos Grous, Quinta do Carmo, Marques de Borba, Herdade de Perdigão…

Esta é a força da “Essência do Vinho”, os melhores produtores de todo Portugal estão lá, e o mais importante, com os seus melhores vinhos. De facto, o seu sucesso, tanto em termos de público como de repercussão mediática, é tal que a cada ano mais vinícolas lutam para participar. Muitos organizadores de feiras em Espanha deveriam seguir o exemplo. Por isso, apesar de estarmos alojados perto de Régua, a mais de 100 km do Porto, no domingo voltamos à feira à tarde, provando vinhos espetaculares e conversando com os produtores, que com grande paixão e simpatia nos deram a conhecer a Essência do Vinho português.

Para que não se torne demasiado longo, dividi este artigo em duas partes. Deixo para a segunda parte as visitas na zona do Douro, à Quinta de Nápoles da Niepoort e à Quinta do Vallado.

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